O mercado reagiu negativamente após entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à TV Record no dia anterior. Nesta quarta-feira, 16, com investidores atentos à política monetária dos Estados Unidos e à situação fiscal do Brasil, o dólar subia, batendo R$ 5,465, com alta de 0,74%.
Lula afirmou na terça-feira (16) que pode não seguir a meta fiscal se houver outras prioridades mais urgentes. Ele também disse que precisa ser convencido sobre os cortes de gastos em 2024, que devem ser formalizados até 22 de julho, com a divulgação do próximo relatório de avaliação do Orçamento.
Na entrevista à TV Record, o petista não descartou a meta de déficit zero para este ano e prometeu cumprir o arcabouço fiscal.
Segundo Lula, a meta fiscal “é apenas uma questão de visão”. “Você não é obrigado a estabelecer uma meta e cumpri-la se você tiver coisas mais importantes para fazer. Este país é muito grande. Este país é muito poderoso, o que é pequeno é a cabeça dos dirigentes deste país e a cabeça de alguns especuladores.”
Ele afirmou, ainda, na entrevista à Record: “Este país não tem nenhum problema se é déficit zero, déficit de 0,1%, 0,2%, não tem nenhum problema para o país. O que é importante é que este país esteja crescendo.”
Quando foi questionado sobre a manutenção da meta de déficit zero, Lula respondeu que a meta de déficit zero “não está rejeitada, porque vamos fazer o que for necessário para cumprir o arcabouço fiscal”.
Dólar sobe com falas de Lula sobre meta fiscal
O dólar subia nesta quarta-feira, 16, com investidores atentos à política monetária dos Estados Unidos e à situação fiscal do Brasil, depois da entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à TV Record no dia anterior.
Às 12h20, a moeda americana tinha alta de 0,74%, cotada a R$ 5,465. O movimento seguia a tendência de alta em mercados emergentes, como o rand sul-africano e o peso mexicano.
Já o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, inverteu o sinal e passou a operar em leve alta, de 0,28%, aos 129.469 pontos.
No Brasil, o mercado reagia às declarações de Lula e entrevista à Record, que causaram incertezas sobre a política fiscal. Ele afirmou que não é obrigado a cumprir a meta fiscal se houver “coisas mais importantes para fazer”.
Por outro lado, Lula garantiu que a meta de déficit zero para este ano não está descartada e que fará o necessário para cumprir o arcabouço fiscal. Ele também disse que precisa ser convencido sobre cortes de gastos em 2024.
No entanto, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que pode haver bloqueio e contingenciamento no Orçamento, no relatório bimestral de receitas e despesas que será publicado no próximo dia 22 de julho.
“Passado os 2,5% [do teto de despesa do arcabouço], tem que haver contrapartida de bloqueio e contingenciamento no caso de receita [abaixo do esperado]. Nós estamos com essa questão pendente, ainda, do cumprimento da decisão do STF sobre a compensação [da desoneração da folha de salários]”, disse Haddad.
Na próxima segunda-feira, 22, o governo vai enviar ao Congresso um documento indicando a necessidade de bloqueio para cumprir o teto de despesas e contingenciamento para não estourar a meta fiscal.
O relatório da próxima semana é visto como um teste do compromisso da equipe econômica com o equilíbrio fiscal.
Relatório do Fed deve impactar dólar
Nesta quarta-feira, o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) divulga o Livro Bege, relatório sobre a economia local. O mercado espera sinais sobre possíveis cortes na taxa de juros, que atualmente permanece no intervalo de 5,25% a 5,50%.
Operadores estimam três cortes de juros este ano, começando em setembro, seguidos por novembro e dezembro, com 68 pontos-base de afrouxamento em 2024, segundo a ferramenta FedWatch da CME.
O otimismo é impulsionado por declarações recentes do presidente do Fed, Jerome Powell. Em um evento no Clube Econômico de Washington, ele disse que as leituras de inflação dos últimos três meses “aumentaram um pouco a confiança” na meta de 2%.
“No segundo trimestre, na verdade, fizemos um pouco mais de progresso”, afirmou Powell. “Tivemos três leituras melhores e, se fizermos a média delas, é uma posição muito boa.”
Um maior afrouxamento monetário nos EUA tornaria o dólar menos atraente, à medida em que os rendimentos dos Treasuries diminuem.
Nesta terça-feira, 16, a bolsa fechou em queda de 0,31%, com o dólar a R$ 5,428.
Declarações de Lula sobre a meta fiscal e o impacto no mercado financeiro
A entrevista, transmitida à noite, teve trechos divulgados à tarde, afetando o mercado financeiro. A Bolsa de Valores, já pressionada por ações de
commodities, caiu 0,16%, fechando a 129.110 pontos, interrompendo uma sequência de 11 altas.
Em outro momento, Lula foi questionado sobre possíveis contingenciamentos para manter a credibilidade do arcabouço fiscal e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ele afirmou que ainda precisa ser convencido da necessidade de cortes.
“Primeiro, tenho que estar convencido se há necessidade ou não de cortar. Sabe que tenho divergência histórica, de conceito, com o pessoal do mercado. É que nem tudo que tratam como gasto, eu trato como gasto”, afirmou o petista.
Lula também mencionou que sua responsabilidade fiscal vem de berço, aprendida com sua mãe, dona Lindu, que o ensinou a não contrair dívidas impagáveis, exceto para construir patrimônio. “Seriedade fiscal eu tenho mais do que quem dá palpite nessa questão no Brasil”, disse, sem citar diretamente economistas ou o mercado financeiro.
Sucessão no Banco Central
Durante a entrevista, Lula também abordou a sucessão no Banco Central, afirmando que não há nome nem prazo definido para indicar o sucessor de Roberto Campos Neto.
“Não tem tempo certo para indicar. Não tem nome certo ainda. Tem muita gente boa, muito palpite. Chega muito nome para mim, todo mundo gosta de indicar um nome”, disse Lula, referindo-se ao diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, como “menino de ouro”.
Diferentemente do que fez desde o início do governo, o presidente evitou ataques ao atual dirigente do Banco Central.
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