Há algo profundamente contraditório — para não dizer hipócrita — na postura adotada por Wagner Moura. Mesmo tendo participado de uma produção financiada com R$ 7,5 milhões em recursos públicos liberados durante o governo Lula, o ator usou a visibilidade internacional do cinema para atacar Jair Bolsonaro, transformando um palco cultural em trincheira política.
O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi contemplado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pela Ancine, órgão vinculado ao governo federal. O financiamento, aprovado em fevereiro de 2024, integra um orçamento estimado em R$ 27 milhões — parte significativa bancada pelo contribuinte brasileiro, inclusive por aqueles que não compartilham da visão política do ator.
Durante a cerimônia do Globo de Ouro, Moura afirmou que Bolsonaro “agora está na cadeia” e que será lembrado como um “fascista que tentou um golpe de Estado”. A fala, além de politicamente carregada, foi feita sem qualquer contraditório, reforçando a prática recorrente de setores da classe artística: criticar adversários do governo enquanto se beneficiam diretamente do Estado.
Não se trata de censurar opiniões. O problema está na assimetria moral. Wagner Moura critica aquilo que chama de “fascismo”, mas ignora o fato de que seu discurso encontra respaldo e conforto justamente em um sistema que seleciona, financia e promove produções alinhadas ideologicamente. A independência artística parece valer apenas quando o dinheiro vem do caixa público — desde que o governo seja “o certo”.
Em entrevista ao The New York Times, o ator voltou a atacar apoiadores de Bolsonaro, classificando-os como difusores de um discurso contra uma suposta “elite intelectual”. A ironia é evidente: poucos grupos no Brasil são tão protegidos, subsidiados e blindados pelo Estado quanto essa mesma elite cultural.
Ao defender mais filmes sobre “a ditadura”, Moura evita esclarecer de qual ditadura fala. Talvez porque olhar para o presente seja desconfortável. Hoje, o Brasil assiste à criminalização de opiniões, à perseguição política seletiva e à censura disfarçada de decisões judiciais — um cenário em que o Judiciário concentra poder sem freios claros e cala vozes dissidentes.
A pergunta que fica é simples e incômoda: a ditadura que Wagner Moura denuncia está apenas no passado — ou ele prefere ignorar aquela que se desenha diante de nós, sustentada pelo silêncio cúmplice de quem vive bem à sombra do poder?
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