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Sábado, 19 de Setembro 2026
Justiça

Alvos de representação por perseguição a servidora, dois vereadores de Camapuã podem perder o mandato e ficar inelegíveis se condenados

Representações pedem que MP investigue possível violência política de gênero, abuso institucional e desvio de finalidade

Redação
Por Redação
Alvos de representação por perseguição a servidora, dois vereadores de Camapuã podem perder o mandato e ficar inelegíveis se condenados
Foto: Reprodução - Câmara de Camapuã
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Dois vereadores de Camapuã foram alvo de representações apresentadas ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul pela diretora de gabinete do prefeito Manoel Nery, Keila Cristina Nunes da Silva. Os documentos envolvem Nilcilei Cavalheiro Pereira, conhecido como “Nilcilei Dog” (PSD), e Luiz Gonzaga Alves de Lima Filho (MDB) e relatam uma sequência de episódios que, na avaliação da servidora, precisam ser investigados pelo órgão.

As duas representações foram protocoladas em 4 de setembro de 2026, pelo advogado Luiz Fernando Espíndola Bino, na 1ª Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da Comarca de Camapuã.

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Keila pede que o Ministério Público apure, entre outros pontos, possível violência política de gênero, abuso da posição institucional e desvio de finalidade, além de eventuais ilícitos que possam ser identificados a partir da análise dos documentos e demais provas.

Vídeo sobre falta de café teria iniciado a sequência de episódios

Segundo as representações, a controvérsia começou com um vídeo divulgado nas redes sociais pelos vereadores Luiz Gonzaga e Nilcilei Cavalheiro. Na gravação, os parlamentares reclamavam da falta de café e copos descartáveis em uma unidade de saúde do município e, ao final, fizeram referência a Keila.

Os vereadores mencionaram a função ocupada por ela na Prefeitura, uma viagem oficial a Brasília e o recebimento de diárias. No trecho reproduzido nas representações, os parlamentares afirmam: “Mas a secretária do Prefeito está aonde? Aonde? Em Brasília. Com o quê? Diária de quase R$ 6.000,00”.

Para Keila, esse episódio marca o início de sua exposição pública pelos parlamentares. As próprias representações esclarecem que a regularidade das diárias recebidas pela servidora não é o objeto do pedido encaminhado ao MP.

Depois do vídeo, Keila também passou a se manifestar publicamente. Em suas declarações, questionou a utilização de recursos públicos e os valores pagos em diárias aos próprios vereadores. Nas representações, ela sustenta que estava exercendo o direito de questionar despesas custeadas com dinheiro público.

Representação contra Luiz Gonzaga cita exposição pessoal e familiar

Na representação contra Luiz Gonzaga, Keila relata uma manifestação feita pelo vereador durante sessão ordinária da Câmara Municipal em 14 de julho de 2026.

Segundo a peça encaminhada ao MP, ao responder aos questionamentos da servidora, o parlamentar teria levado a discussão para aspectos relacionados à atuação funcional, à vida pessoal e à família de Keila, inclusive com menção à filha dela.

A sessão foi gravada e, conforme a representação, o conteúdo posteriormente foi disponibilizado pelo próprio vereador em sua página no Facebook.

Keila afirma que, após a repercussão do episódio, passou a receber ataques e manifestações ofensivas nas redes sociais. A representação não atribui diretamente ao parlamentar a autoria das mensagens publicadas por terceiros, mas pede que o MP analise os efeitos da exposição dentro do conjunto dos acontecimentos.

Entre as declarações de Luiz Gonzaga reproduzidas no documento estão: “Toda vez que eu sentir vontade de questionar eu vou questionar” e “Fala de mim porque não fala de mim?”.

A servidora sustenta que a discussão originalmente relacionada a gastos públicos acabou direcionada à sua pessoa e à sua família e pede que o Ministério Público avalie se houve abuso da posição institucional e violência política de gênero.

Nilcilei apresentou ofício para evitar contato com servidora

A representação contra Nilcilei Cavalheiro Pereira reúne outros episódios ocorridos durante a controvérsia.

Segundo o documento, durante a 22ª Sessão Ordinária do 2º Período Legislativo da 19ª Legislatura, realizada em 17 de agosto de 2026, Nilcilei informou ter apresentado um requerimento e o Ofício nº 39/2026, no qual solicitou providências administrativas e preventivas para evitar contato pessoal e situações de conflito envolvendo ele e Keila.

Na sessão, conforme trecho reproduzido na representação, o vereador afirmou que a manifestação da servidora havia ultrapassado “a linha do limite da crítica política” e chegado ao âmbito “privado, particular e pessoal”.

Para Keila, a utilização de instrumentos da própria Câmara nesse contexto também precisa ser examinada. Ela pede ao MP que verifique se o requerimento e o ofício tinham finalidade estritamente administrativa ou se foram utilizados como forma de resposta institucional aos questionamentos que vinha fazendo sobre recursos públicos.

Fala sobre gasolina também aparece na representação

Os documentos ainda registram outro episódio ocorrido durante a sessão de 17 de agosto.

De acordo com a representação, Luiz Gonzaga voltou a abordar manifestações feitas por Keila e mencionou uma declaração dela relacionada ao fornecimento de gasolina pelo gabinete do prefeito Manoel Nery.

No trecho transcrito no documento, o vereador afirma que a situação poderia representar crime e diz: “quando ela for falar, é para tomar cuidado que isso é muito perigoso”. Na sequência, acrescenta que bastaria alguém fazer uma denúncia e afirma: “de repente eu faça”.

A representação pede que essas declarações sejam analisadas dentro de todo o contexto da controvérsia, especialmente para verificar se representaram uma resposta legítima ao conteúdo divulgado pela servidora ou se tiveram caráter de constrangimento ou intimidação.

Câmara aprovou Nota de Repúdio

Outro episódio citado nas duas representações é uma Nota de Repúdio apresentada conjuntamente por Nilcilei Dog e Luiz Gonzaga contra manifestações públicas feitas por Keila.

Segundo os documentos encaminhados ao MP, a nota entrou na Ordem do Dia da Câmara e foi aprovada por unanimidade em 17 de agosto de 2026.

Conforme o registro reproduzido nas representações, a justificativa era de que manifestações da diretora de gabinete teriam ultrapassado o “legítimo debate político” e atingido aspectos relacionados à “honra, saúde, vida privada e familiar de um parlamentar”.

Para Keila, o fato de a controvérsia ter resultado em uma manifestação formal aprovada pelo Legislativo também deve ser investigado. Ela pede que o Ministério Público analise a autoria, a fundamentação, a discussão e a votação da nota e verifique se houve eventual utilização da estrutura institucional da Câmara para constrangê-la ou retaliá-la.

O que as representações pedem ao Ministério Público

Na representação contra Nilcilei, Keila solicita a análise da gravação integral da sessão de 17 de agosto, do requerimento e do Ofício nº 39/2026, dos respectivos anexos, de eventual parecer do setor jurídico da Câmara, das publicações feitas pelo parlamentar nas redes sociais e da Nota de Repúdio.

No caso de Luiz Gonzaga, são solicitadas a análise das sessões de 14 de julho e 17 de agosto, da Nota de Repúdio, das publicações feitas pelo vereador e dos registros relacionados aos ataques que Keila afirma ter recebido posteriormente nas redes sociais.

A servidora também pede que o Ministério Público investigue se os acontecimentos podem caracterizar violência política de gênero e violência contra a mulher no exercício de função pública, além de eventual abuso da posição institucional, abuso de autoridade, desvio de finalidade e improbidade administrativa, conforme os pedidos específicos apresentados em cada representação.

Caso sejam encontrados indícios de ilícitos, as peças requerem a adoção das providências cabíveis nas esferas correspondentes e, se necessário, o encaminhamento dos fatos aos órgãos competentes.

Caso agora está sob análise do Ministério Público

Com as representações, Keila formalizou perante o Ministério Público sua versão dos acontecimentos e pediu a investigação da atuação dos dois vereadores.

Os documentos reúnem referências a vídeos, sessões da Câmara, manifestações em redes sociais, um requerimento, o Ofício nº 39/2026 e a Nota de Repúdio aprovada pelo Legislativo, materiais que a representante pede que sejam analisados em conjunto para esclarecer se houve irregularidade.

As acusações ainda dependem de apuração e não há, nos documentos analisados, decisão do Ministério Público reconhecendo a prática dos ilícitos apontados.

Caberá agora ao órgão definir o encaminhamento das representações e avaliar as diligências solicitadas. Nilcilei Dog e Luiz Gonzaga devem ser procurados pela reportagem para apresentar suas versões sobre os fatos e sobre as acusações feitas pela diretora de gabinete.

Se as suspeitas apontadas nas representações forem confirmadas e o caso resultar em condenação, Nilcilei Dog e Luiz Gonzaga podem, dependendo do enquadramento e da decisão dos órgãos competentes, chegar a perder o mandato e ficar inelegíveis.

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