A condução das investigações no Brasil volta a levantar questionamentos sobre equilíbrio e coerência institucional. A nova fase da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, reacendeu esse debate ao avançar sobre parlamentares da oposição enquanto, no Congresso, investigados ligados ao esquema de fraudes no INSS foram poupados de convocações pela maioria governista na CPMI.
Na manhã desta sexta-feira (19), a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar possíveis desvios de recursos públicos envolvendo o uso de cotas parlamentares. Entre os alvos estão os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Carlos Jordy (PL-RJ). A ação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino e incluiu mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos parlamentares e a assessores. O inquérito segue sob sigilo.
A reação política veio na sequência. A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) criticou a operação e afirmou que “o Brasil é o país em que o poste mija no cachorro”. A declaração traduz a percepção, presente em setores da oposição, de que há assimetria na atuação do Estado diante de casos de corrupção.
O contraste é reforçado pelos episódios recentes da CPMI do INSS. Levantamentos baseados em decisões judiciais, atas da comissão e requerimentos parlamentares mostram que ao menos cinco pessoas citadas na nova fase da investigação tiveram pedidos de convocação rejeitados, retirados de pauta ou não apreciados. Entre elas, nomes do meio político, do Executivo e do setor privado, todos já mencionados em relatórios, documentos oficiais e reportagens da imprensa.
A estratégia adotada na comissão seguiu o rito formal, mas produziu um efeito concreto: a limitação do alcance das investigações no âmbito parlamentar. Convocações não ocorreram, quebras de sigilo não avançaram e o esclarecimento público dos fatos ficou incompleto.
O governo sustenta que não há blindagem e que todos serão investigados caso surjam elementos suficientes. Esse argumento, no entanto, convive com decisões políticas que, na prática, retardaram ou impediram oitivas consideradas relevantes por parte da oposição.
Não se trata de questionar a legalidade das operações da Polícia Federal nem de atribuir culpa prévia a qualquer investigado. O ponto central é a percepção de desequilíbrio. Quando o rigor institucional parece variar conforme o campo político, o desgaste não recai apenas sobre os alvos, mas sobre a credibilidade do sistema como um todo.
A democracia exige investigações amplas, consistentes e simétricas. Sem isso, a sensação de que “o poste mija no cachorro” deixa de ser apenas uma frase de efeito e passa a refletir um problema maior: a dificuldade do país em convencer que a lei vale, de fato, para todos.