A declaração do ministro Dias Toffoli, ao afirmar que “vários magistrados são fazendeiros e donos de empresas” e que, desde que não administrem diretamente os negócios, “têm todo direito de receber seus dividendos”, expõe mais do que uma interpretação jurídica. Ela revela um distanciamento preocupante entre a cúpula do Judiciário e o peso real das decisões que recaem sobre a vida de milhões de brasileiros.
Ao fazer coro com Alexandre de Moraes, Toffoli não apenas legitima a acumulação patrimonial de magistrados, como também trata com naturalidade um conflito que, embora nem sempre ilegal, é inegavelmente ético. Juízes decidem sobre desapropriações, conflitos agrários, questões ambientais, tributos, crédito rural e políticas públicas que impactam diretamente o campo. Nesse contexto, dizer que basta “não administrar” para afastar qualquer problema soa simplista — e conveniente.
O cargo de magistrado não é uma função comum. Ele carrega prerrogativas, poder e, sobretudo, responsabilidade. Julgar não é apenas aplicar a lei de forma mecânica; é interferir diretamente no destino de pessoas, empresas, comunidades inteiras. Quando quem julga também lucra, ainda que indiretamente, de setores afetados por essas decisões, a imparcialidade deixa de ser apenas uma virtude e passa a ser uma exigência absoluta.
O problema não está apenas na legalidade formal, mas na percepção pública. O Judiciário depende de confiança. E essa confiança se fragiliza quando ministros parecem ignorar que o padrão ético exigido de um juiz precisa ser mais alto do que o do cidadão comum. Não basta “ter direito”; é preciso demonstrar isenção, sobriedade e compromisso com o interesse público.
As falas de Toffoli e Moraes reforçam a sensação de que parte da magistratura vive em uma bolha institucional, distante da realidade social que suas decisões moldam diariamente. Enquanto milhões enfrentam insegurança jurídica, crises econômicas e conflitos fundiários, ministros relativizam o impacto de interesses privados dentro da toga.
Mais do que discutir se juiz pode ou não ser fazendeiro, o debate deveria ser outro: os ministros do Supremo têm plena consciência do peso simbólico, moral e social de suas palavras e decisões? Porque, para quem está do lado de fora do tribunal, a resposta parece cada vez menos evidente.